Quem faz o anime fica com apenas 10% da receita internacional?
Quem faz o anime fica com apenas 10% da receita internacional?

Você acredita que quem faz o anime pode ficar com apenas 10% da receita internacional?
Anime nunca movimentou tanto dinheiro.
Em 2024, o mercado mundial ligado à animação japonesa chegou a ¥3,84 trilhões. Desse total, ¥2,17 trilhões vieram do mercado internacional.
Mais da metade.
Só que existe outro número.
No mesmo ano, o faturamento estimado de todas as empresas japonesas que efetivamente produzem animação foi de ¥466,2 bilhões.
O anime virou um negócio de ¥3,84 trilhões.
Mas isso não significa que ¥3,84 trilhões passaram pelos estúdios que fizeram os animes.
E é aqui que aqueles 10% começam a fazer sentido.
O anime sai do Japão. O dinheiro também.

O pesquisador Yosuke Yasui, do Japan Research Institute, vem estudando justamente o descompasso entre o crescimento mundial do anime e a capacidade das empresas que efetivamente o produzem de capturar esse crescimento.
Em um levantamento referente a 2022, reproduzido pela imprensa japonesa, as produtoras ficaram com cerca de 18% das vendas domésticas e apenas 6% das vendas internacionais.
Então de onde saiu o “10%”?
Ele funciona como uma aproximação para uma diferença que muda conforme o recorte e o ano analisados. O dado mais específico de Yasui para o exterior em 2022 é ainda menor: 6%.
Ou, olhando pelo outro lado:
de cada ¥100 movimentados naquele recorte internacional, aproximadamente ¥94 estavam em outras partes da cadeia.
E essas outras partes têm nome.
Distribuição - Streaming - Televisão - Publicação - Licenciamento - Produtos - Publicidade.
Quem fez os desenhos está dentro de uma indústria gigantesca.
Mas não necessariamente está dentro de todos esses negócios.
Porque produzir o anime é uma coisa. Explorar o anime é outra.
Imagine um estúdio contratado para fazer uma série.
Ele recebe um orçamento.
Contrata equipe.
Faz storyboard.
Layout.
Animação.
Cenário.
Composição.
Finalização.
Entrega o episódio.
E recebe pelo trabalho.
A série estreia.
Faz sucesso.
É vendida para outro país.
Entra numa plataforma.
Ganha Blu-ray.
Camiseta.
Boneco.
Jogo.
Evento.
Música.
O estúdio continua recebendo?
Depende do que ele negociou antes de começar a desenhar.
Se foi contratado apenas para produzir, seu negócio pode terminar justamente quando começa a parte mais visível para o público:
a exploração comercial da obra pronta.
É aí que entra o comitê de produção.
Quem colocou dinheiro antes quer participar do dinheiro depois

No modelo japonês, é comum que empresas de diferentes áreas se juntem para financiar uma produção.
Editora.
Emissora.
Distribuidora.
Gravadora.
Publicidade.
Fabricante de produtos.
Plataforma.
Estúdio.
Cada produção monta essa estrutura de uma maneira e os direitos dependem dos contratos.
A Comissão de Comércio Justo do Japão descreve que, no modelo hoje predominante, empresas como produtoras cinematográficas, emissoras e editoras podem planejar e financiar a obra por meio do comitê de produção, enquanto a fabricação efetiva da animação é encomendada à produtora principal.
A animação sai do estúdio.
Depois de pronta, pode seguir para televisão, cinema, streaming, DVD e produtos.
Agora dá para enxergar por que o dinheiro não faz necessariamente o caminho inverso.
Quem fabrica o anime não é automaticamente quem controla todas as maneiras de ganhar dinheiro com ele.
E isso não é apenas uma discussão acadêmica.
O próprio governo japonês resolveu olhar para essa relação.
O Japão começou a olhar os contratos

Em 2025, a Japan Fair Trade Commission investigou as relações comerciais na produção de anime.
Em junho de 2026, publicou diretrizes específicas para o setor.
Um dos pontos tratados é justamente o direito autoral.
A JFTC encontrou contratos em que os direitos ficam com o comitê de produção e situações em que direitos originalmente pertencentes à produtora são transferidos para ele.
E estabeleceu uma orientação bastante concreta:
se direitos pertencentes à produtora forem transferidos e essa transferência estiver incluída no preço de produção, isso precisa ser discutido e remunerado adequadamente.
Traduzindo para a nossa conversa:
não estamos falando apenas de “quanto custa fazer um episódio”.
Estamos falando também de quanto vale aquilo que fica depois que o episódio está pronto.
E isso nos traz de volta aos estúdios.
O sucesso pode estar na tela sem estar no balanço
Existe uma cena que para mim resume bem essa distorção.
Um estúdio passa meses — às vezes anos — produzindo uma obra.
A obra estreia.
Explode.
Milhões de pessoas assistem.
Começam a aparecer camisetas, figures, jogos, eventos, produtos, novas temporadas, contratos internacionais...
E o estúdio pode continuar dependendo da próxima encomenda para manter a equipe trabalhando.
Não porque alguém necessariamente “roubou” o dinheiro dele.
Mas porque serviço, investimento e propriedade são três posições diferentes dentro do mesmo negócio.
Se você vendeu serviço, recebe pelo serviço.
Se investiu, pode negociar participação no retorno.
Se possui direitos, pode participar da exploração daquele ativo.
E uma empresa pode ocupar uma, duas ou as três posições.


A IG Port é um bom exemplo.
O grupo, que controla empresas como Production I.G e WIT Studio, explica aos próprios investidores que pode simplesmente receber para produzir uma animação.
Mas também pode investir em comitês.
Quando investe, pode receber receitas proporcionais à participação, royalties de produção e rendimentos ligados aos direitos que administra.
Mesma indústria.
Mesmo grupo.
Negócios diferentes.
Foi exatamente essa conta que mudou o Valu Studios

Nós também produzimos para terceiros.
E não existe nenhum problema nisso.
Prestação de serviço gera caixa, paga equipe, movimenta estrutura e pode ser um ótimo negócio.
O problema aparece quando, depois de anos produzindo, você olha para trás e percebe que construiu uma quantidade enorme de obras...
mas todo o patrimônio ficou do outro lado da mesa.
Foi por isso que o modelo 360º do Valu Studios começou a se organizar em torno da propriedade intelectual autoral.
A animação continua lá.
Mas pode estar ligada a quadrinhos, livros, música, distribuição, licenciamento, educação, produtos e outras formas de exploração da mesma propriedade.
Não significa que precisamos fazer tudo sozinhos.
Muito pelo contrário.
Podemos ter parceiros diferentes em cada uma dessas áreas.
A diferença é que a animação deixa de ser apenas uma entrega e passa a trabalhar para valorizar um ativo que continua conosco.
O problema não é produzir para terceiros.
É produzir sem acumular patrimônio.
E agora aquela pergunta do começo fica ainda melhor:
quem faz o anime fica com apenas 10%?
Às vezes pode ficar com menos.
Às vezes pode ficar com mais.
Pode participar do comitê.
Pode possuir direitos.
Pode receber royalties.
Pode ser apenas contratado para produzir.
O percentual sozinho não conta a história.
Para descobrir quem realmente ganha quando um anime explode no mundo inteiro, precisamos saber quem colocou dinheiro, quem assumiu risco e quem ficou com os direitos.
E aí chegamos a Demon Slayer.
Porque Mugen Train passou de ¥51 bilhões de bilheteria mundial.
Quem fez a animação foi a Ufotable.
Então...
a Ufotable ficou bilionária?
Essa é a próxima fofoca. 😁✌🏽
Fontes para conferir
IG Port — FAQ para investidores sobre produção, comitês e receitas Quem faz o anime fica com apenas 10% da receita internacional?


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